Dando a impressão
Martha Medeiros
Um homem de 29 anos que viajava de avião com a mãe para a Turquia foi questionado pelos seguranças sobre um objeto suspeito que levava na bagagem. Envergonhado de dizer na frente da mãe que se tratava de um aparelho que aumentava o pênis, o engraçadinho respondeu jocosamente:
– É uma bomba.
Vai ser espirituoso assim bem longe do meu portão. Só um mentecapto pronuncia a palavra bomba dentro de um aeroporto, mesmo que esteja apenas comentando que levou bomba no vestibular ou que a festa bombou ontem à noite. Bomba é palavra proibida. Já fez muitas decolagens serem abortadas, muitos voos serem desviados e muitos piadistas serem indiciados, como aconteceu com o esperto que viajava com a mãe. Ele pode pegar três anos de prisão se condenado.
A despeito da patetice do rapaz, uma coisa está clara: a paranoia chegou a um extremo que beira o ridículo. Recentemente um avião que estava indo para a Índia teve que retornar ao aeroporto de Amsterdã porque doze passageiros demonstraram comportamento “preocupante”: eles soltaram o cinto de segurança antes do aviso luminoso ser apagado. Muito preocupante. E sacaram seus celulares das bolsas, dando a impressão de que estavam tentando repassá-los para outros passageiros. “Dar a impressão”, hoje, é mais do que motivo para interromper uma viagem.
Um voo entre dois estados americanos também teve sua rota desviada porque uma comissária considerou estranho o cheiro da água que estava dentro de uma garrafa. Dava a impressão de que não era água. Ao aterrissarem, surpresa: era água.
Um homem barbudo dá a impressão de ser um terrorista árabe, um jovem pálido dá a impressão de estar com medo, um gago dá a impressão de estar nervoso, uma pessoa muito agasalhada dá a impressão de estar escondendo alguma coisa embaixo do casaco, alguém que olha muito pro relógio, dá a impressão de que está controlando um detonador, alguém comendo vorazmente dá a impressão de estar fazendo sua última refeição, uma mulher que não fala com ninguém dá a impressão de não querer se denunciar. E alguém que mente, só de brincadeira, que está levando uma bomba na bagagem dá a impressão de que não leu jornal nos últimos cinco anos e pode muito bem ser louco o suficiente para estar falando a verdade.
Estamos todos paranoicos. Isso sim é preocupante.
Domingo, 3 de setembro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.